O Sertão não espera a fábrica

Sou do Sertão. Minha família é de Monteiro há gerações, e foi aqui, e não em gabinete nenhum, que aprendi a ler os números do país. Esta semana veio mais um deles.

O Caged de junho anunciou 145.161 empregos formais criados no Brasil. O Caged — Cadastro Geral de Empregados e Desempregados — é o registro oficial em que o governo contabiliza, todo mês, quantas pessoas foram contratadas e quantas foram demitidas com carteira assinada. É o termômetro do emprego formal no país. E a manchete correu como boa notícia.

É boa — mas é preciso ler o que ela não diz. Quase metade desse saldo ficou em São Paulo, Minas e Rio. O emprego com carteira, no Brasil, nasce onde já há renda, mercado e indústria. Ao pequeno município do Sertão ele chega tarde, chega pouco, ou não chega. E eu sei disso não por estatística: sei porque vi, ao longo da vida, gente boa daqui arrumar a mala e pegar o ônibus para o Sul, porque a terra que amavam não tinha o que oferecer. Quando o emprego formal aparece por aqui, boa parte vem do próprio serviço público. É desenvolvimento por respiração assistida.

O mundo já respondeu a essa questão. Quase 58% da força de trabalho do planeta está fora do emprego formal — perto de dois bilhões de pessoas. Mas isso não é virtude, é ferida: informalidade em massa é sinal de precariedade, não de liberdade. O que o mundo ensina não é abraçar o “se vira”, e sim que nenhuma nação venceu a pobreza apenas esperando o grande empregador aparecer. O caminho que funcionou foi transformar quem sobrevive por necessidade em quem prospera por oportunidade — e isso tem dois pilares, educação e empreendedorismo, sem os quais nenhuma economia se sustenta.

O Sertão tem a matéria-prima e quase sempre a desperdiça. A costureira do bairro, o dono do mercadinho, o produtor que leva o leite à cooperativa — a Capribom, aqui em Monteiro, prova que a nossa gente sabe gerar riqueza quando se organiza. No Brasil, as micro e pequenas empresas abriram oito de cada dez vagas formais no último ano, e o Nordeste foi o segundo maior gerador de emprego nesse segmento. O motor está dentro de casa. Só falta combustível: crédito acessível, acompanhamento e uma escola que ensine o jovem a empreender antes de empurrá-lo para a fila do concurso ou para o ônibus que o leva embora da própria terra.

E aqui é preciso honestidade: pequeno negócio, sozinho, gera emprego frágil e de baixa produtividade. Não basta ter muitos — é preciso torná-los fortes. Por isso educação e empreendedorismo andam juntos. Ensinar a calcular um preço, gerir um caixa e enxergar oportunidade onde os outros só veem seca é infraestrutura tão real quanto asfalto. Sem essa base, abrir CNPJ vira estatística que fecha no ano seguinte.

Chega o ponto que exige coragem. O auxílio a quem precisa é dever de qualquer sociedade decente — a crítica não é a quem recebe, mas ao modelo que transforma socorro de emergência em horizonte permanente. Quando a política pública se contenta em manter o pobre sobrevivendo, e não em torná-lo capaz de caminhar sozinho, apenas administra a pobreza com mais conforto. O problema nunca foi o Estado agir; é o que ele escolhe financiar: dependência ou capacidade produtiva.

Termino com o desafio que faço à minha própria gente — a prefeitos, secretários, empresários e professores do Sertão: parem de medir o futuro da cidade pelo que Brasília anuncia e passem a medi-lo pelos negócios que a cidade cria e mantém de pé. Tratem o microempreendedor como o herói econômico que ele é, não como contribuinte a fiscalizar. O emprego que esperamos de fora talvez nunca chegue. Mas a economia que nasce de dentro já está aqui — esperando apenas que a deixemos crescer.

Inácio José Feitosa Neto
Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor

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