Prefeito(a) poste: a família que o eleitor ajuda a eleger

Autor: Inácio Feitosa

No interior do Brasil, existe uma família numerosa e inconfundível: a família Poste, com seu João, sua Ana e sua Maria. O apelido nasce quando quem governa, impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo, indica alguém sem experiência de gestão e sem expressão eleitoral própria, apenas para manter a cadeira aquecida. O povo resume com a sabedoria de sempre: se o padrinho tivesse indicado o poste da praça, teria eleito o poste. E o poste, como se sabe, não decide, não ousa e não se move.

O prejuízo vai muito além do despreparo. Na prefeitura, o poste governa esperando a ordem de quem o apadrinhou: não assina, não nomeia, não inaugura sem autorização. Não tem projeto próprio, porque não foi escolhido para ter. E a cidade paga a conta: o trânsito caótico, o casario histórico que desaba, os cães abandonados nas ruas, a calçada quebrada, a iluminação que falha. Quem governa de olho no retrovisor não enxerga o buraco que está à frente.

Pior ainda é quando o poste, sem experiência, sem autonomia e sem projeto, transforma a prefeitura em extensão de disputas nacionais, enquanto negligencia as responsabilidades locais. Sobe em palanque alheio, repete a cartilha de fora e se ocupa da briga dos outros, enquanto a cidade fica abandonada. Participar do debate nacional é legítimo; deixar de administrar o município é que não tem justificativa.

Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra adotou outro discurso. Sem idealizar ninguém, pois toda liderança tem alianças e sombras, ela, eleita prefeita de Caruaru em 2016 e reeleita em 2020, apresentou-se como “pernambuquista” e defendeu a cooperação institucional com o governo federal. Em 2026, foi reeleita governadora no primeiro turno, com 53,27% dos votos válidos. O resultado não elimina críticas nem contradições, mas permite uma reflexão: se uma liderança estadual procura preservar uma identidade própria, por que alguém à frente de uma prefeitura se contentaria em repetir ordens?

Em Coronelismo, Enxada e Voto, Victor Nunes Leal examinou as relações de dependência e compromisso que sustentavam o poder dos chefes locais. O poste pode ser visto como uma atualização dessa velha lógica: o padrinho oferece a candidatura, o eleitor entrega o voto, e a cidade corre o risco de ficar sem quem governe com autonomia.

Só que o mandão mudou de figurino. Décadas atrás, o chefe político era representado pelo coronel de chapéu, cercado de jagunços, impondo respeito pelo medo. Em 2026, muitos dos que ocupam esse lugar se parecem mais com influenciadores: circulam com equipes de maquiagem, filmagem e iluminação e governam para o enquadramento. O antigo coronel ganhou câmera, filtro e direção de imagem. E esse papel também pode ser exercido por mulheres. O cenário é outro, mas a lógica permanece: quem manda não é quem foi eleito, mas quem escolheu o poste.

E o poste só existe porque encontra quem o eleja. A necessidade do eleitor é real, e ninguém a ignora, mas o preço é baixo demais: trezentos reais ou um tanque de combustível não pagam quatro anos de posto de saúde sem médico, de escola sem professor e de rua sem asfalto. A compra de votos alimenta a má gestão, porque quem trata a eleição como investimento tende a tratar o mandato como oportunidade de recuperar o que gastou. A vulnerabilidade de quem recebe não diminui a responsabilidade de quem explora essa necessidade.

A lei também alcança os dois lados: comprar votos e solicitar ou receber vantagem em troca do voto podem configurar corrupção eleitoral. Além da responsabilização criminal, a compra de votos pode levar à cassação do registro ou do diploma do candidato, quando preenchidos os requisitos legais e comprovada sua participação ou anuência. O mandato conquistado dessa maneira já nasce comprometido com uma dívida que não é com a cidade.

Em meu livro A Real Política, que reúne os anais da Assembleia Legislativa da Paraíba entre 1947 e 1966, registro uma fala do meu avô, o deputado Inácio Feitosa, em 1964, sobre os prefeitos do seu tempo: “os homens que o povo escolheu para administrar vilas que viraram municípios, em vez de melhorar, estão melhorando a própria situação”. Passaram-se mais de seis décadas, e a lição continua atual: quem escolhe mal o administrador paga a conta, e a conta chega sempre ao município.

Cidade não é herança de grupo político nem mercadoria de campanha. Quem cuida dela precisa de nome, voz, experiência e coragem. Poste ilumina rua, não governa município.

E você, leitor, conhece algum membro da família Poste?

Inácio Feitosa é advogado, administrador e mestre em Educação pela UFPE. Autor de seis livros, entre eles A Real Política, foi secretário de Educação Profissional e Juventude do Recife e diretor do SENAI Pernambuco. É presidente do Instituto Darcy Ribeiro.

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