Durante anos, ouvi que a maior ameaça ao forró pé de serra era a concorrência de outros ritmos. Hoje, penso diferente. O maior risco para a cultura popular nordestina não está na música sertaneja de Goiás, nem em artistas como Roberto Carlos, Marisa Monte ou Alok. O verdadeiro perigo é a falta de compromisso de muitos gestores com as próprias raízes que dizem representar.
Em diversos municípios, o São João deixou de ser uma celebração da identidade nordestina para se transformar em um grande negócio. As antigas festas populares realizadas nas praças centrais deram lugar a estruturas cada vez mais parecidas com festivais privados, com camarotes, áreas exclusivas, influenciadores digitais e uma programação pensada mais para gerar repercussão do que para preservar a tradição.
Curiosamente, quando o calendário eleitoral se aproxima, muitos daqueles que passaram anos relegando a cultura popular a um papel secundário redescobrem a importância da sanfona. Os mestres do forró voltam a ser lembrados. Os discursos em defesa das tradições reaparecem. O regionalismo volta a ser celebrado. Não necessariamente por convicção, mas porque a cultura, em determinados momentos, também produz dividendos políticos.
Não deixa de ser uma ironia. Artistas que ajudaram a construir a identidade do Nordeste, como Flávio José, por vezes são tratados como alternativas ocasionais, dependentes de agendas livres ou de circunstâncias favoráveis. Como se a sua presença nos principais festejos juninos fosse um gesto de generosidade dos administradores e não um reconhecimento natural à contribuição que deram ao patrimônio cultural da região.
O mais preocupante é que a descaracterização das festas costuma ser atribuída à juventude. Discordo. Os jovens consomem aquilo que lhes é oferecido. A responsabilidade pelas escolhas culturais financiadas com recursos públicos pertence aos gestores. São eles que decidem se o São João será uma festa da tradição ou apenas mais um produto de entretenimento.
Defender o forró pé de serra não significa rejeitar a modernidade. O novo e o tradicional podem conviver harmoniosamente. O que não é aceitável é transformar a cultura popular em um adereço que se tira do armário em junho e se guarda novamente depois das eleições.
Talvez o maior desrespeito não seja substituir a sanfona por outros ritmos. Pior do que isso é utilizá-la como instrumento de conveniência política. Porque tradição não é fantasia de festa junina. Não é peça de marketing. Não é estratégia eleitoral.
A sanfona não precisa de favor. Não precisa de piedade. E muito menos de calendário eleitoral.
Ela precisa apenas de respeito.
Inácio Feitosa
Advogado, escritor e professor universitário.
